segunda-feira, 2 de novembro de 2026

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A OPOSIÇÃO QUE FAZ BARULHO E A POLÍTICA QUE FAZ ACORDOS

Você realmente acredita que uma maioria de oposição no Congresso significa que o próximo governo Lula terá uma oposição efetiva?

Talvez seja hora de olhar a política brasileira para além dos discursos de campanha.

Muitos eleitores foram às urnas acreditando que estavam elegendo deputados e senadores para fazer oposição ao governo, enfrentar o STF e defender determinadas pautas consideradas fundamentais pela direita.

Mas o que realmente acontece meus caros leitores, é que a eleição termina no dia da apuração e a política começa no dia seguinte. E é justamente nesse momento que o eleitor precisa prestar atenção.

O discurso eleitoral e a realidade do Congresso

O político sabe que precisa convencer o eleitor de que está ao lado dele. Durante a campanha, fala-se em oposição, combate aos abusos, defesa da liberdade, enfrentamento ao governo e independência do Parlamento.

Depois da eleição, entretanto, existe uma outra realidade: a construção das maiorias dentro do Congresso Nacional. E, acredite, maioria parlamentar não se constrói apenas com ideologia, constrói-se com liderança, cargos, relatorias, espaços nas comissões, presidências, orçamento, negociação e, principalmente, acordos. Ah e acordos que só quem os faz sabem o preço que valeu.

Isso não é necessariamente ilegal ou imoral, aliás, negociar faz parte da própria democracia parlamentar, mas o problema começa quando o eleitor acredita que determinado parlamentar foi eleito para uma finalidade, enquanto, nos bastidores, ele atua segundo uma lógica completamente diferente.

Então quem realmente controla o Congresso?

Veja um exemplo que merece reflexão, que custou alguma pesquisa para apresentar-lhes:

Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara para o atual período e passou a contar, para a próxima legislatura, com o apoio de um amplo bloco parlamentar que reúne União, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania e Podemos. A própria Câmara informou que esse bloco se comprometeu a apoiar sua recondução. Posteriormente, a federação formada por PT, PCdoB e PV também anunciou apoio à sua reeleição.

No Senado, Davi Alcolumbre ocupa a Presidência no biênio 2025-2027 e também construiu, desde sua eleição, uma ampla base de apoio que ultrapassou as fronteiras ideológicas tradicionais. Em 2025, recebeu apoio formal de oito partidos, entre eles União, MDB, PP, PL, PDT, PT, PSB e PSD.

Dito isso meus amigos, é o caso de tirar algum ensinamento.

Na política real, oposição e governo frequentemente se encontram na mesa de negociação, e isso nos leva a uma pergunta incômoda:

Se determinado parlamentar foi eleito dizendo que seria oposição, por que ele apoiaria justamente aqueles que pretende combater?

A resposta pode estar menos no discurso e mais na estrutura de poder do Congresso, e aí que entra o barulho, pois ele também pode fazer parte da negociação existe ainda outro fenômeno interessante.

Um parlamentar pode fazer discursos duros contra o governo, pode criticar o STF, pode subir à tribuna, conceder entrevistas, publicar vídeos nas redes sociais e transmitir ao eleitor a impressão de que está enfrentando o sistema.

Mas, quem disse que isso não significa, necessariamente, que ele esteja disposto a romper com o sistema político que sustenta sua própria posição. É possível fazer oposição no discurso e negociar nos bastidores. É possível produzir muito barulho público e, ao mesmo tempo, construir acordos privados. E aqui está o ponto que o eleitor deveria compreender: O barulho político pode ser, ele próprio, parte da negociação.

Quanto maior o conflito apresentado publicamente, maior pode parecer a distância entre os grupos, mas, nos bastidores, os mesmos grupos podem estar conversando sobre a composição da Mesa, comissões, relatorias, presidências e espaços de poder e não há nada de extraordinário nisso. É assim que funciona boa parte do parlamentarismo informal existente dentro de um sistema presidencialista como o brasileiro.

E por que o voto é secreto? 

Agora chegamos talvez à pergunta mais interessante.

Por que a eleição das Mesas da Câmara e do Senado é feita por voto secreto?

Na Câmara dos Deputados, o Regimento Interno prevê o voto secreto nas eleições para presidente e demais integrantes da Mesa. No Senado, o art. 60 do Regimento Interno determina expressamente que a eleição dos membros da Mesa será realizada por escrutínio secreto.

Há uma justificativa institucional possível: o parlamentar pode exercer sua escolha sem sofrer pressão pública de seu partido, de grupos políticos ou do próprio governo.

Mas existe também uma consequência política inevitável: O eleitor não sabe como seu representante votou. E isso é particularmente relevante quando estamos falando justamente da escolha de quem comandará o Poder Legislativo.

Imagine o seguinte cenário: Um deputado faz campanha dizendo que jamais apoiará determinado grupo. Depois, na eleição da Mesa, vota secretamente em um candidato apoiado por esse mesmo grupo.

O eleitor saberá? Não necessariamente. E é justamente aí que começa uma das grandes contradições da política brasileira:

O eleitor escolhe o parlamentar publicamente, mas o parlamentar pode escolher seus principais aliados dentro do Congresso secretamente. Não se trata de demonizar a negociação.

É importante deixar claro: negociação política não é sinônimo de corrupção. Uma democracia parlamentar precisa negociar, governos precisam construir maioria e a oposição precisa negociar, partidos precisam negociar.

Projetos de interesse nacional dificilmente seriam aprovados se cada parlamentar votasse exclusivamente segundo as posições de seu partido ou de sua base eleitoral. O problema não é negociar, o problema é o eleitor não compreender o que está sendo negociado em seu nome.

Por isso, não basta acompanhar o discurso do deputado ou senador nas redes sociais. É preciso acompanhar suas votações, alianças, posições nas comissões, participação em blocos parlamentares e, principalmente, observar quem ele ajuda a colocar no comando do Congresso.

Talvez a pergunta mais importante depois de uma eleição não seja: “Quem ganhou?” Mas: “Quem vai comandar o Congresso?” E, depois: “Quem votou para colocar essas pessoas lá?”

É aí que a política começa a ficar realmente interessante, porque o eleitor pode acreditar que elegeu uma bancada de oposição, mas a bancada eleita pode descobrir, rapidamente, que existem interesses muito maiores do que simplesmente ser oposição ao governo.

No Congresso, ninguém governa sozinho, ninguém aprova nada sozinho, e ninguém ocupa a Presidência da Câmara ou do Senado sem construir uma maioria.

Por isso, antes de comemorar uma suposta “maioria da oposição”, talvez seja melhor esperar para descobrir como essa maioria votará quando as portas do plenário se fecharem e começar a verdadeira negociação política.

Afinal, como ensina a velha política: O discurso pode ser público,
a negociação pode ser privada, mas a conta sempre chega ao eleitor.

E talvez seja justamente por isso que devamos prestar mais atenção ao que acontece depois das eleições do que ao que foi prometido antes delas.

Forte Abraço!

Por Usama Samara.


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