A OPOSIÇÃO QUE FAZ
BARULHO E A POLÍTICA QUE FAZ ACORDOS
Você realmente acredita que uma
maioria de oposição no Congresso significa que o próximo governo Lula terá uma
oposição efetiva?
Talvez seja hora de olhar a
política brasileira para além dos discursos de campanha.
Muitos eleitores foram às urnas
acreditando que estavam elegendo deputados e senadores para fazer oposição ao
governo, enfrentar o STF e defender determinadas pautas consideradas
fundamentais pela direita.
Mas o que realmente acontece meus
caros leitores, é que a eleição termina no dia da apuração e a política começa
no dia seguinte. E é justamente nesse momento que o eleitor precisa prestar
atenção.
O discurso eleitoral e a
realidade do Congresso
O político sabe que precisa
convencer o eleitor de que está ao lado dele. Durante a campanha, fala-se em
oposição, combate aos abusos, defesa da liberdade, enfrentamento ao governo e
independência do Parlamento.
Depois da eleição, entretanto,
existe uma outra realidade: a construção das maiorias dentro do Congresso
Nacional. E, acredite, maioria parlamentar não se constrói apenas com ideologia,
constrói-se com liderança, cargos, relatorias, espaços nas comissões,
presidências, orçamento, negociação e, principalmente, acordos. Ah e acordos
que só quem os faz sabem o preço que valeu.
Isso não é necessariamente ilegal
ou imoral, aliás, negociar faz parte da própria democracia parlamentar, mas o problema
começa quando o eleitor acredita que determinado parlamentar foi eleito para
uma finalidade, enquanto, nos bastidores, ele atua segundo uma lógica
completamente diferente.
Então quem realmente controla o
Congresso?
Veja um exemplo que merece
reflexão, que custou alguma pesquisa para apresentar-lhes:
Hugo Motta foi eleito presidente
da Câmara para o atual período e passou a contar, para a próxima legislatura,
com o apoio de um amplo bloco parlamentar que reúne União, PP, PSD,
Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania e Podemos. A própria Câmara informou que esse
bloco se comprometeu a apoiar sua recondução. Posteriormente, a federação
formada por PT, PCdoB e PV também anunciou apoio à sua reeleição.
No Senado, Davi Alcolumbre ocupa
a Presidência no biênio 2025-2027 e também construiu, desde sua eleição, uma
ampla base de apoio que ultrapassou as fronteiras ideológicas tradicionais. Em
2025, recebeu apoio formal de oito partidos, entre eles União, MDB, PP, PL,
PDT, PT, PSB e PSD.
Dito isso meus amigos, é o caso
de tirar algum ensinamento.
Na política real, oposição e
governo frequentemente se encontram na mesa de negociação, e isso nos leva a
uma pergunta incômoda:
Se determinado parlamentar foi
eleito dizendo que seria oposição, por que ele apoiaria justamente aqueles que
pretende combater?
A resposta pode estar menos no
discurso e mais na estrutura de poder do Congresso, e aí que entra o barulho,
pois ele também pode fazer parte da negociação existe ainda outro fenômeno
interessante.
Um parlamentar pode fazer
discursos duros contra o governo, pode criticar o STF, pode subir à tribuna,
conceder entrevistas, publicar vídeos nas redes sociais e transmitir ao eleitor
a impressão de que está enfrentando o sistema.
Mas, quem disse que isso não
significa, necessariamente, que ele esteja disposto a romper com o sistema
político que sustenta sua própria posição. É possível fazer oposição no
discurso e negociar nos bastidores. É possível produzir muito barulho público
e, ao mesmo tempo, construir acordos privados. E aqui está o ponto que o
eleitor deveria compreender: O barulho político pode ser, ele próprio, parte da
negociação.
Quanto maior o conflito
apresentado publicamente, maior pode parecer a distância entre os grupos, mas,
nos bastidores, os mesmos grupos podem estar conversando sobre a composição da
Mesa, comissões, relatorias, presidências e espaços de poder e não há nada de
extraordinário nisso. É assim que funciona boa parte do parlamentarismo
informal existente dentro de um sistema presidencialista como o brasileiro.
E por que o voto é secreto?
Agora
chegamos talvez à pergunta mais interessante.
Por que a eleição das Mesas da
Câmara e do Senado é feita por voto secreto?
Na Câmara dos Deputados, o
Regimento Interno prevê o voto secreto nas eleições para presidente e demais
integrantes da Mesa. No Senado, o art. 60 do Regimento Interno determina
expressamente que a eleição dos membros da Mesa será realizada por escrutínio
secreto.
Há uma justificativa
institucional possível: o parlamentar pode exercer sua escolha sem sofrer
pressão pública de seu partido, de grupos políticos ou do próprio governo.
Mas existe também uma
consequência política inevitável: O eleitor não sabe como seu representante
votou. E isso é particularmente relevante quando estamos falando justamente da
escolha de quem comandará o Poder Legislativo.
Imagine o seguinte cenário: Um
deputado faz campanha dizendo que jamais apoiará determinado grupo. Depois, na
eleição da Mesa, vota secretamente em um candidato apoiado por esse mesmo
grupo.
O eleitor saberá? Não
necessariamente. E é justamente aí que começa uma das grandes contradições da
política brasileira:
O eleitor escolhe o parlamentar
publicamente, mas o parlamentar pode escolher seus principais aliados dentro do
Congresso secretamente. Não se trata de demonizar a negociação.
É importante deixar claro: negociação
política não é sinônimo de corrupção. Uma democracia parlamentar precisa
negociar, governos precisam construir maioria e a oposição precisa negociar, partidos
precisam negociar.
Projetos de interesse nacional
dificilmente seriam aprovados se cada parlamentar votasse exclusivamente
segundo as posições de seu partido ou de sua base eleitoral. O problema não é
negociar, o problema é o eleitor não compreender o que está sendo negociado em
seu nome.
Por isso, não basta acompanhar o
discurso do deputado ou senador nas redes sociais. É preciso acompanhar suas
votações, alianças, posições nas comissões, participação em blocos
parlamentares e, principalmente, observar quem ele ajuda a colocar no comando
do Congresso.
Talvez a pergunta mais importante
depois de uma eleição não seja: “Quem ganhou?” Mas: “Quem vai comandar o
Congresso?” E, depois: “Quem votou para colocar essas pessoas lá?”
É aí que a política começa a
ficar realmente interessante, porque o eleitor pode acreditar que elegeu uma
bancada de oposição, mas a bancada eleita pode descobrir, rapidamente, que
existem interesses muito maiores do que simplesmente ser oposição ao governo.
No Congresso, ninguém governa
sozinho, ninguém aprova nada sozinho, e ninguém ocupa a Presidência da Câmara
ou do Senado sem construir uma maioria.
Por isso, antes de comemorar uma
suposta “maioria da oposição”, talvez seja melhor esperar para descobrir como
essa maioria votará quando as portas do plenário se fecharem e começar a
verdadeira negociação política.
Afinal, como ensina a velha
política: O discurso pode ser público,
a negociação pode ser privada, mas a conta sempre chega ao eleitor.
E talvez seja justamente por isso
que devamos prestar mais atenção ao que acontece depois das eleições do que ao
que foi prometido antes delas.
Forte Abraço!
Por Usama Samara.
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